No outro dia, uma amiga perguntou-me como eu geria a ira. Achei essa questão engraçada, porque por debaixo da minha aparente serenidade existe muita raiva à espera de explodir. Em muitos momentos da minha vida senti-me como a Ember do Elemental, a fazer o meu melhor para não extravasar, mas acabando por entrar em erupção como um vulcão.
Também achei piada – ou pelo menos contraditório – observar que quanto mais eu abraçava um estilo de vida zen, mais o que me rodeia parecia provocar estas crises em mim. Mal se começa a fazer um caminho qualquer de mindfulness, apercebemo-nos que tinhamos imensas emoções que começam a vir à superfície. E a principal emoção que temos reprimida ou suprimida é a raiva.
Podemos aceitar a tristeza, o luto, a vergonha, a frustração, a irritação. Até podemos aceitar a inveja e o ciúme. Mas temos imensa dificuldade em aceitar e lidar com a nossa raiva. Está tão enraizado que a ira é errada que não somos capazes de a enfrentar e lidar com ela de forma limpa.
Atiramos a raiva para o lado como se não existisse até que a mesma irrompe nos momentos mais imprevisíveis quando o nosso corpo já não consegue aguentar.
Não admira que nenhuma outra emoção precise mais de um bode expiatório do que a ira. Não podemos estar enraivecidos a menos que tenhamos uma boa razão para nos sentirmos dessa forma. Tentamos sempre encontrar algo ou alguém para culpar por deixar esta emoção sair.
Então como podemos devidamente lidar com a raiva?
Primeiro que tudo, é necessário aceitarmos a nossa ira. Assumi-la e honrá-la.
Para a assumir, precisamos de observar como a projetamos no mundo na forma de culpa ou queixume. De cada vez que nos queixamos de algo ou alguém ou sempre que apontamos o dedo a algo ou alguém, não estamos a assumir a nossa própria raiva.
Às vezes podemos ter a ilusão de que sentimos esta emoção por causa de algo que aconteceu ou que alguém fez, mas, na realidade a raiva é uma emoção, uma energia em movimento, que nos atravessa. É necessário que a vejamos em si mesma e lidemos com ela de forma limpa.
De cada vez que vemos políticos ou jogadores de futebol a insultarem-se, vemos pessoas que estão escravizadas pela energia da sua raiva. Nenhuma pessoa emocionalmente consciente insultaria alguém em vez de debater diferentes pontos de vista (e chegar a conclusões em conjunto).
Quando a raiva se manifesta dessa forma é, não só, uma perda de tempo, como também não é produtiva. Que pena! Tanta energia desperdiçada em vitimizar-nos na forma de culpabilizar ou reclamar.
Infelizmente, trata-se de um reflexo humano que ainda não aprendemos a gerir adequadamente. Práticas Taoistas como Chi Kung e a Meditação do Sorriso Interior ensinam que para se lidar com a raiva, é necessário separar a energia da emoção da pessoa ou situação sobre a qual se está a projetar.
Quando se consegue visualizar essa separação, a pessoa ou situação perde o seu poder sobre nós e somos capazes de lidar adequadamente com a energia dessa emoção. Assim, podemos honrar a raiva que estamos a sentir, admitindo-a em si própria e tomando-a como parte da experiência humana.
Agora que vemos a raiva pelo que é e a sentimos no corpo em vez de usarmos a mente para a projetar no mundo, precisamos de encontrar formas de gerir esta poderosa energia para que não nos consuma e para que não se expresse no mundo de forma destrutiva, através de insultos e atos mesquinhos.
Há 3 coisas que podemos fazer para gerir a nossa raiva de forma saudável. Estas 3 coisas podem ser usadas em conjunto. Podes usar a que te ajudar a sentir melhor no momento ou a que se adequa mais à tua rotina.
1 – Movimento e Expressão Corporal
A raiva é uma das emoções mais poderosas que podemos sentir. É uma emoção que faz com que a cabeça fique quente e se tenha imenso calor na garganta, peito e braços, daí a vontade de gritar ou insultar e bater ou mexer os braços.
Assim, é bastante útil executar uma forma de atividade física como dançar, correr, trabalho corporal, limpar a casa, gritar, cantar, emitir sons ou várias destas em simultâneo. Quando cantas ou gritas estás a ajudar-te a descarregar a energia desta emoção em forma de som, libertando a garganta do grande bloqueio de energia que estás a sentir. Quando mexes o corpo estás a permitir que esta energia se mova para fora de ti.
2 – Estar na natureza e banhos de floresta
Não é por acaso que banhos de floresta estão a tornar-se cada vez mais populares. O poder curativo da natureza tem sido comprovado pela ciência como uma das melhores terapias.
A natureza, especialmente as árvores e a floresta têm uma qualidade calmante que é muito útil para descarregar a energia da raiva e nos enraizar. Esta afinidade entre a ira e a madeira pode ser melhor compreendida neste vídeo.
Uma caminhada diária ou semanal na natureza tem benefícios de longo prazo para a tua saúde e é especialmente útil quando se está a lidar com raiva. Observa como te sentes após uma caminhada de 30 minutos no meio das árvores.
Quando mergulhamos na natureza desta forma, ficamos mais relaxadas e mais centrados pois o nosso organismo sintoniza-se com o ritmo da Terra.
3 – Transformar a energia em criatividade e criação
Quando extraímos a emoção da pessoa, ou da situação, disponibilizamos muita energia que podemos usar. Podemos transformar esta energia em trabalho corporal, conforme previamente indicado, e/ou em trabalho criativo.
É diferente canalizar a raiva para as artes e usá-la para criar. É mais sobre transformá-la e depois a partir dessa transformação, usar a energia que foi libertada para a criatividade.
A forma de arte escolhida pode ser a mesma: escrever, pintar, desenhar, cantar, dançar, tricotar, seja qual for a arte para a qual te sentes mais inclinado/a, mas o resultado final é bem diferente, pois, no primeiro caso, a arte foi usada como veículo para expressar a raiva e, no segundo caso, a mesma arte foi usada para expressar a energia que a raiva deixou disponível para criar a partir de um lugar de consciência.
Isto faz toda a diferença no resultado do que é criado mesmo que o processo possa ser idêntico.
Em suma, para sermos livres, verdadeiramente livres, necessitamos aprender a gerir as nossas emoções, especialmente a raiva.
Ser emocionalmente livre significa que estamos conscientes, que somos capazes de responder em vez de reagir, que somos capazes de criar uma higiene mental e emocional que nos permita estar limpos das emoções que nos escravizam.
Isto ainda é novo para nós. Estamos numa era em que estamos na iminência da transição de emocionalmente escravizados para emocionalmente livres, mas até esse dia ainda temos um longo caminho a percorrer. E começa contigo! Começa com seres gentil contigo próprio/a.
Eu sei o quão horrível é estares irritado/a ou chateado/a com algo ou alguém. Mas também sei o quão bem sabe quando consistentemente fazemos uma ou as 3 práticas acima descritas.
Sei a sensação de paz e leveza que vem de caminhar na floresta ou de praticar Chi Kung. E também sei os rasgos de criatividade que posso ter quando começo a libertar esta emoção de forma saudável.
E, mesmo que eu tenha uma erupção de raiva, eu levo as coisas de forma mais fácil e leve, sou mais gentil e compassiva comigo própria, porque sei que estou a fazer o meu melhor. E sei que estes episódios se estão a tornar menos frequentes e mais curtos e eu estou a tornar-me mais consciente dessa energia antes de ela se manifestar.
Estou a prestar mais atenção à forma como me sinto num determinado momento e a aprender a nutrir-me com uma atitude gentil para comigo própria e o meu processo.
Ao estar consciente, já estou a mudar a emoção.
Podes pensar “como se uma única pessoa pudesse ter impacto ou mudar alguma coisa”. Mas, na verdade, tu podes!
Estamos tão focados em desempoderar-nos que não reconhecemos e acreditamos no noss grande poder. Cada um de nós é responsável pela energia que pomos cá fora através de palavras e ações. Por isso, vamos assumir essa responsabilidade e honrá-la!
“É um pequeno passo para um homem, um salto gigante para a Humanidade.” Neil Armstrong

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