No outro dia à hora de almoço houve uma discussão sobre o número de horas que trabalhamos e quão cansados ou não estamos. Ontem, um amigo meu partilhou como foi diagnosticado com burnout. Outra amiga partilhou como não tinha absolutamente nada para fazer a maior parte do dia e, no entanto, apesar de ser trabalho digital, tinha de estar sentada em frente do computador durante 8h todos os dias. A crença subjacente de que quanto mais tempo se fica no escritório, melhores profissionais somos, independentemente do que estamos a fazer durante essas horas ou do quão produtivos somos, ainda está viva!
Em teoria, pensaríamos que a mentalidade humana teria acompanhado a evolução tecnológica, que quanto melhores eram os nossos telefones, computadores e máquinas, menos horas trabalharíamos, para nos adaptarmos ao novo mundo. Pensar-se-ia que numa sociedade que evoluiu tanto tecnologicamente também haveria uma evolução social idêntica. No entanto, não é bem assim. O status quo mantém-nos presos e a nossa aceitação silenciosa contribui para manter tudo como está.
No ano passado, estive a fazer mentoria a um grupo de estagiários internacionais que estavam a trabalhar em diversos lugares do mundo. Alguns confidenciaram-me que tinham de se sentar no escritório o dia todo sem nada para fazer e o quão deprimente isso era. Acabavam por passar tempo em redes sociais ou a olhar para o ecrã do computador perguntando-se como as suas vidas podiam estar mais ao serviço.
Sentarmo-nos num emprego sem fazer nada aumenta a ansiedade e a depressão à medida que intensifica a sensação de falta de propósito. Habituámo-nos a associar propósito com algo a fazer no mundo, em vez de algo a ser. Quando mudarmos esta mentalidade, ainda vamos fazer coisas, mas iremos fazê-las a partir do ser. O “fazer” será uma consequência do ser em vez do contrário. Por isso, por incrível que pareça, ser forçado a sentarmo-nos num trabalho sem nada para fazer contribui para níveis de stress elevados.
Efetivamente, certas profissões requerem que se esteja lá durante 8h mesmo que o montante de trabalho varie. Nesses casos, o trabalho é dependente de presença humana em vez de um objetivo ou de uma tarefa específica.
Mas, olhando para isto ao contrário, digamos que efetivamente a pessoa tem muito que fazer. Pode-se considerar duas opções: 1. Seria possível concentrar as tarefas, diminuindo as distrações e/ou pausas e/ou interrupções por terceiros? Ou 2. Seria possível partilhar a carga de trabalho com outra pessoa?
Continuo a ver pessoas que estão orgulhosas de estarem em burnout ou em esforço até à exaustão, como se isso fosse uma medalha para exibir. Quando iremos parar a mentalidade de que sentirmo-nos exaustos é sinónimo de trabalho árduo?
Eu também costumava acreditar nisso. Na verdade, isso está enraizado em mim, uma vez que os nossos ancestrais tiveram de trabalhar arduamente para termos as vidas que temos atualmente. Eles entraram em esgotamento e esforçaram-se imensamente, muitas vezes às custas de tempo de família e da própria saúde. Mas, agora, já não temos de o fazer! Quando é que vamos perceber isso? Quando é que vamos honrar os que nos precederam facilitando a nossa própria vida e assumindo a vida melhor que eles queriam que tivessemos? Quando é que vamos dar o exemplo para as próximas gerações a começar agora? Afinal de contas, nós somos os ancestrais de amanhã!
Somos melhores profissionais quando nos entregamos completamente ao que quer que seja que estejamos a fazer. A única forma de as empresas prosperarem é quando nos sentimos bem. Quanto melhor nos sentirmos, melhor o nosso contributo vai ser. Por isso, para sermos produtivos, é importante termos equilíbrio entre trabalho e outras atividades. Equilíbrio na vida é tudo. É a chave para a nossa saúde, para os nossos relacionamentos, até mesmo para o nosso trabalho. O equilíbrio é o ingrediente secreto que transforma qualquer empreendimento num sucesso enorme.
É possível ver como esta urgência de fazer a transição para um modelo social que melhor responda às necessidades da sociedade se esteja a tornar mais claro, especialmente para gerações mais novas. Podemos ver movimentos como Silent Quitting (Despedimento Silencioso) onde as pessoas fazem o que é exigido para cumprir os objetivos do trabalho e depois deixam-se estar sem fazer nada até um novo dia ou um novo conjunto de objetivos chegar. O Despedimento Silencioso é uma forma de sabotagem de cooperar com o sistema existente em vez de lutar contra ele.
Mas será que é despedimento silencioso ou revolução pacífica?
Também se pode chamar a este comportamento uma Revolução Pacífica que se move em direção à era em que o verdadeiro equilíbrio casa-trabalho é considerado. Se analisarmos o número de horas em que um ser humano consegue ser produtivo, rapidamente concluímos que 8h a fazer qualquer tarefa é demasiado para qualquer pessoa. Felizmente, países como a Noruega e a Suécia já estão a dar o exemplo. O dia normal de trabalho é de 7,5h e está rapidamente a avançar para as 6h por dia.
De acordo com a Escola de Medicina de Harvard, o cérebro humano consegue concentrar-se por período de 10 a 52 minutos. Tudo o que seja mais do que isso obstrói a capacidade de estar em completa concentração, exceto para flows criativos, que podem durar diversas horas. A maioria dos trabalhos de hoje em dia não são criativos. Na verdade, a criatividade foi empurrada para o lado como um incómodo que não tem grande espaço nas sociedades modernas. Se tivermos em consideração comer e pausas para casa-de-banho para alguém que trabalha 8h por dia, então é fácil de ver que uma parte do tempo que passamos no trabalho abrange atividades não relacionadas com trabalho. Queremos mesmo continuar desta forma? É isto que queremos para os nossos filhos? Estar em burnout ou sentados em trabalhos por mais horas do que a nossa eficiência, motivação, e saúde requerem?
Então porque é que é está na hora de avançarmos para o modelo de 6h por dia?
1 – Melhor para a Saúde
É o melhor para a saúde dos humanos e esta razão por si só deveria ser suficiente para se avançar para outro modelo social.
A maioria das pessoas sacrificam certos aspetos da sua saúde por falta de tempo. Pode ser privação de sono, escolhas alimentares, ou até atividade física ou estar imerso na natureza. Quanto mais trabalhamos, menos tempo temos para investir no nosso equilíbrio.
Acredito que o trabalho é importante e que tem um papel fundamental na nossa saúde, especialmente na saúde mental. No entanto, a única forma de ser considerado um boost na saúde é se o número de horas que trabalhamos nos permitir ter outras atividades.
O melhor para a nossa saúde é realmente ter equilíbrio casa-trabalho, pelo que 6h no trabalho iria permitir que, finalmente, as pessoas pudessem ter tempo de qualidade com família, amigos, hobbies. Seria possível dedicarem o seu tempo a perseguir outros interesses e a cultivar relações significativas sem terem de o fazer às custas de tempo de sono. Dormir é fundamental para garantir a saúde física e mental e sem o peso das 8h haveria (mais) tempo para atividade física, conexão com a natureza e obter sono de boa qualidade.
Quanto mais saudáveis estamos, melhores decisões conseguimos tomar para o nosso habitat. Portanto, um ser humano saudável é também o maior investimento para o ambiente, o que nos leva ao próximo ponto.
2 – Melhor para o Habitat
Passar tanto tempo no trabalho também pode representar maior produção e o uso de mais recursos. À medida que abrimos espaço para contemplar e fazer outras atividades que nos ligam mais com o ser, em vez do fazer, libertamos o ambiente da carga pesada que lhe colocamos.
O ambiente representa o nosso habitat, por isso se arranjarmos formas de nos conetar com a natureza e de a preservar, vamos naturalmente ser mais sustentáveis nas escolhas que fazemos. Desde os produtos que compramos, à forma como fazemos as coisas, ser sustentável significa tornar a vida mais fácil para nós a longo prazo e, consequentemente, ser mais ambientalmente amigável.
É muito mais sustentável trabalhar menos horas por dia e/ou criar modelos de trabalho que favoreçam o tempo para ser em vez do tempo para o fazer. Fazer normalmente significa atingir e atingir está ligado a mais, mais e mais. Quanto mais, melhor! Enquanto que ser é sinónimo de um certo desfrutar das coisas e respeito pelos ciclos, o que significa sustentabilidade. Quando não temos de perseguir nenhum objetivo a atingir, podemos relaxar e desfrutar do momento presente e estar em comunhão com a natureza. Um exemplo deste princípio é o respeito pelas estações, sendo que do ponto de vista do trabalho, um verdadeiro ajuste ao ritmo sazonal significaria trabalhar menos horas no Inverno do que no Verão.
Movimentos como o De-Growth focam-se neste princípio. Tal como a Abraham Hicks diz: se tivesses toda a comida que comerias a tua vida toda entregue a ti hoje o que farias? Se, efetivamente, essa comida fosse entregue agora, não seria possível de a ingerir, uma vez que é suposto ela ser ingerida ao longo do tempo. De outra forma, perde o seu propósito.
Ser sustentável requer tempo livre. Mesmo que seja tempo livre para mergulhar nas coisas do mundo e depois ficar exausto/a com elas e perceber que estamos tão interligados ao ambiente que, qualquer ação que possamos ter, mais cedo ou mais tarde se reflete no nosso habitat e, como tal, na nossa saúde.
3 – Usar a Tecnologia para Servir o Progresso
Não é inteligente, nem eficaz não usar a tecnologia para simplificar as nossas vidas. Manter o velho modelo do mundo significa que não acompanhamos o progresso tecnológico que criámos. É como estar em duas eras diferentes. Uma era onde era necessário trabalhar – pelo menos – 8h para conseguir que as coisas estivessem feitas. E uma era onde as coisas são feitas muito mais rapidamente graças a computadores e máquinas, mas enchemos o tempo inventando tarefas desnecessárias para fazer, tornando-os menos eficientes e menos motivados.
Tal demonstra que, apesar de termos mentes brilhantes no que toca a lógica e ciência computacional, os nossos cérebros são – aparentemente – não suficientemente espertos no que toca a criar um modelo de trabalho que acompanhe o progresso que atingimos até à data. Ou talvez ainda não tenhamos realmente pensado na questão e sejemos vítimas de apatia. Tenho a certeza que a espécie que inventou a cura para muitas doenças, que criou modelos de troca de moeda digital, que pode prever o as condições climatéricas, que inventou os aviões, e muitas outras inovações científicas incríveis consegue arranjar algo igualmente brilhante em termos de organização socio-económica.
Avançar para o modelo de 6h de trabalho por dia ajuda-nos a manter a nossa sociedade alinhada com o progresso tecnológico.
4 — Evoluir como Espécie
Vamos ultrapassar o medo de fazer menos e ser mais. A principal razão pela qual é tão doloroso e, aparentemente, insuportável neste momento é porque ainda não aprendemos como lidar e digerir as nossas emoções. Esse é, na verdade, o próximo passo na evolução da nossa espécie. Quando formos finalmente capazes de perceber que nenhum factor externo nos pode dar a satisfação ou paz que só podem vir de dentro, enfrentaremos finalmente a dor e o trauma que está geneticamente dentro de nós e poderemos evoluir.
Poderemos parar de projetar a nossa dor no mundo e enfrentá-lo de forma limpa, e a nossa consciência emocional começará a mudar. Conseguiremos ver o nosso papel no mundo e a forma como vivemos as nossas vidas com uma clareza profunda.
Claro que as nossas mentes nos levam numa série de razões sobre porque é que este modelo social não iria resultar, mas contempla simplesmente a possibilidade por um minuto. Está presente com esta ideia! O que queres para os teus filhos?
Mesmo que não consigamos contemplar um futuro que nunca vimos, não o vamos matar, justificando com todas as coisas que sabemos até hoje. Só porque eu não sei algo ou não sei como implementar esse algo, tal não significa que não seja possível.
E o argumento “eu sou só uma pessoa, não há nada que eu possa fazer.” não é válido. A mudança começa com um único ser. A mudança começa contigo. A evolução requer que cada célula do organismo incorpore o novo paradigma. Cada um de nós pode fazer a diferença só refletindo sobre esta possibilidade.
5 – Honra os Teus Ancestrais
Evoluir como espécie significa honrar os nossos Ancestrais. Às vezes achamos que temos de sofrer como eles sofreram e esta lealdade amorosa inconsciente mantém-nos perpetuamente nos mesmos padrões.
Mas, pensa no seguinte, o único objetivo dos pais é dar uma vida melhor aos seus filhos. O propósito de todas as invenções é simplificar a vida humana e torná-la mais fácil ou melhor. Não há homenagem mais honrosa para com os nossos ancestrais do que tornar a nossa vida melhor.
Nós somos o sonho dos nossos Ancestrais e eles não gostariam de nada mais do que ver-nos a prosperar. Na verdade, a parte deles que existe em nós é também responsável por nos dar as ideias brilhantes que temos e de implementar novas invenções que simplifiquem a nossa vida.
O modelo de 6h de trabalho diário é não só uma excelente forma de começar esta transição como é uma oportunidade incrível de ultrapassar os desafios que possam surgir com essa mudança.
As empresas de amanhã terão mais ênfase nas pessoas porque compreendem que pessoas felizes são mais eficientes e orientadas para soluções, e isto é o que leva a progresso e inovação. Essas empresas já estão a usar a tecnologia para servir o progresso e compreendem que casar a (r)evolução tecnológica trabalhando menos horas é o que faz sentido, em vez de evoluir numa área e manter velhos hábitos que não são condizentes com esse progresso. Esse passo é o ponto seguinte na evolução.
Se és um/a profissional motivado/a e apaixonado/a pelo que fazes contempla como seria o teu dia se trabalhasses 6h em vez de 8?
Se és um/a gestor/a visionário/a com vontade de vencer como seria o teu negócio se a tua empresa estabelecesse um modelo de 6h em vez de 8? O que significaria progresso para ti? Estarias disposto/a a confiar que podes atingir mais com menos?
A mentalidade está a mudar. As pessoas já não são números. As diretivas de ESG (Environment Social and Governance) estão a implementar novas formas de as empresas de posicionarem no mercado onde não é apenas a produção e a pegada de carbono que conta, mas também os níveis de saúde e felicidade que as pessoas sentem, sendo cada vez mais claro de que tudo está interligado.
Uma empresa só pode ser bem sucedida se os seus colaboradores também forem bem sucedidos nas suas vidas. Não é um um ou o outro, mas sim ambos prosperarem em conjunto. Os modelos cooperativos estão a liderar o caminho e a substituir os velhos modelos competitivos.
É cada vez mais evidente que as empresas são feitas por pessoas. Não importa quão rápida ou desenvolvida seja a tecnologia, as pessoas são o centro. A tecnologia existe para servir as pessoas, e não o contrário. As pessoas são melhor bem de qualquer empresa. A pessoa certa no lugar certo pode escalar qualquer negócio para o nível seguinte. Vamos assumir o progresso e começar a dizer sim às nossas vidas incentivando uma união global que seja focada no ser. Vamos ter a coragem de ir onde ninguém foi antes e moldar as nossas sociedades com a visão do nosso futuro.

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