Entrevista com a Sacerdotisa Astreia

Conheci Astreia graças ao milagre da internet e ao Curso de Sacerdotisa Andina da Nación Pachamama, liderado pelo inspirador Lucidor Flores. Foi uma verdadeira benção aprender com essa mulher de voz delicada e espírito indomável. Para além de Sacerdotisa experiente, Astreia é uma ativista que através de ações diárias consistentes em diversas causas, acrescenta valor à Mãe Terra e sensibiliza por onde passa para essa consciência. Para além disso, Astreia lidera o Programa Canto Livre da Rádio Comunitária Campeche, cuja última edição foi dedicada ao dia de Pachamama em 1 de Agosto. Vamos descobrir um pouco mais sobre todo esse trabalho notável que Astreia tem vindo a desenvolver:

 

1 – O que significa para você o xamanismo e ser uma sacerdotisa nos tempos que correm?

Quando pude visitar a Mongólia, terra do xamanismo, e deixar-me absorver por aquela peregrinação, senti a dignidade de um povo que não foi colonizado. Havia algo nos olhos dos campesinos nômades que não sei explicar, quiçá era a própria raça que falava, a própria Pachamama. É um país que grande parte da população não se reconhece numa religião, senão que são devotos do sol, da terra, do ar, do fogo, ou seja, da liberdade.

Sinto que é isso, um espírito sagaz, livre, indomável e selvagem. É sentir as forças da mãe vida com tamanho realismo, que teu ser volta a estar alinhado com ela, com os ciclos, com as danças, as encruzilhadas do caminho e as sombras que nele existem. É sentir sua própria vulnerabilidade com doçura e voltar a despertar todas as manhas, agradecendo ao vento frio do inverno ou ao gelo que cobre a terra afora.

Nos Andes vemos muito sobre a curanderia, que é um outro nome para o xamanismo. São jeitos que te levam ao encontro da tua própria Natureza originária, que não está separada ou individualizada, senão que está experimentando a UNIDADE da vida.

A Sacerdotisa é um estado de consciência feminina, quando a voz originária se abre a sentir a unidade. Isso desperta um amor profundo à vida e teu ser não se adormece pelas distrações dos sentidos, das projeções emocionais e bombardeio de informações.

Trata-se de limpar o ver de superficialidade para sentir a vida com profunda sinceridade, ou seja, desmascarar a Matrix (como gosto de chamar a sociedade do consumo).

A Sacerdotisa é aquela que sacraliza sua existência, reconhecendo a realidade e preenche-a com magia e misticismo. Que muda ambientes densos, de dor, injustiça, descrença, soberba, colorindo-os com o poder da alegria e da intima confiança de que o melhor está por vir, sem medo de ser uma realista que usa, no cotidiano, temperos mágicos.

As forças dos saberes da Mãe Terra não tem o propósito de nos trazer experiências transcendentais, senão que de nos despertar para a possibilidade de sermos quem somos. Hoje, geralmente fugimos de aceitar a vida tal qual ela é.

2 – O que é a Mulher-Jaguar?

É a mulher que assume seu instinto e a sua feminilidade. Que consegue sair dos seus mundos mentais e emocionais, que tanto nos prendem a pensamentos obsessivos ou excessivos em si mesma, para atuar, lutar e dedicar sua voz, seus poderes, sua intuição para ajudar a Pachamama nesse momento que nosso planeta precisa tanto.

A Mulher Jaguar aprende a manejar as energias desde seu centro de poder, o útero, para auxiliar a curas sociais, servir e semear o amor e a liberdade.

Podemos ver, por todo mundo, uma primavera ao qual a Mulher esta tomando e assumindo-se parte das mudanças, tanto enquanto gênero, tanto quanto potencial criativo, como criadoras de realidades. Isso não é uma coincidência, é um despertar coletivo.

Quando estudamos a história da resistência latino americana, vemos que muitas mulheres estiveram lutando pela Liberdade, a ponto de deixar casa, filhos e maridos para mover pessoas, levar cartas de amor ou estar dentro dos campos de batalhas. Me encanta ler e reler as histórias de Micaela Bastidas, Tomaza Tito Condemayta, de Juana Azurduy e etc.

É um traço da mulher-jaguar. Unir a espiritualidade com o ativismo sagrado pela Pachamama. Não é pegar em armas, é revolucionar a consciência. A Mãe Terra clama por Hermanas despertas, sensíveis e atuantes.

Por isso, a mudança não é para poucos, ela não classista, senão para todos. A mulher, aliada ao homem e não contra ele, gera um imenso poder de complementariedade, o que lhe ajuda a florescer na sua visão e sensibilidade.

Quando se alia a sede de mudança, junto a devoção a Pachamama, a Deusa, aos poderes intuitivos, do amor a terra, aos ancestrais, aos Apus, ao povo sem voz, e etc., despertamos do mundo individualista rumo o estado de complementariedade.

Sinto que a Mulher Jaguar é, acima de tudo, essa potencialidade de amar, amar muito, sem limites, sem medos, sem julgamentos… Amar tanto, que a Pachamama se mostra e deixamos de direcionar nosso poder as necessidades de consumo e ao culto às aparências.

 

3 – O que podemos fazer para apurar a intuição?

Há exercícios muito simples para trabalhar a intuição, principalmente relacionado ao centro cardíaco, ou seja, ao coração.

Porém, o que realmente ajuda é nos auto observarmos. Uma das grandes travas que temos e que impedem que o ver intuitivo ocorra, é por projetarmos nossa visão de mundo nos outros ou em situações. Isso mescla o sentir real, que é ausente de Eu.

A intuição é livre. Ela sente e vê as situações sem óculos, pois o olhar precisa se manter límpido, sem projeções e interpretações, para que ocorra por si mesma, assim como o fluxo de um rio que sabe o caminho, todavia sem o saber.

A meditação é a base para limpar a visão das projeções, para esvaziar o copo. Também auxilia muito fazer um trabalho com as próprias sombras ou Egos, de forma a se tornar consciente deles. A Prática dos 21 Dias é muito boa para afinar essa sensibilidade.

Sugiro um exercício bem simples, que pode ser feito a qualquer momento e em qualquer lugar:

Sentindo o Prana, o espaço onde esteja, inspire com intenção e sinta teu coração se abastecer de energia. Segure por alguns instantes a respiração, te nutrindo dela, e exale. Ao liberar a respiração, sinta que teu coração se abre como um livro sendo aberto e ali irradie, compartilhando todo teu amor à vida.

Este simples exercício ajuda que o coração se expanda (se abra). O desenvolvimento desse chacra nos faz sentir o próximo, sem Eu, e a adentrar no fluxo natural, aonde a vida e a visão ocorrem.

 

4 – O que podemos fazer como indivíduos e como sociedades para nos conectarmos mais uns nos outros e com a nossa casa, a Terra? O que precisa mudar?

Sabe esta sensação de, sem motivo algum, teu coração florescer agradecendo por simplesmente estar vivo? Essa é a maravilha te tocando.

Sinto que este sentido de manter-se grato faz com que teu coração se mantenha úmido, sensível, vulnerável e humilde. A sociedade do consumo faz o contrário, ela provoca sensações de que sempre nos falta algo para estar bem e felizes.

O coração grato e contemplando a justa indignação, te coloca em movimento.

Isso nos ajuda a sentir o outro, a caminhar pela praia e juntar o lixo na areia, pois sabes que aquele plástico pode parar na barriga de algum animal, de dar bom dia ao passarinho que, todos os dias, vem até a árvore em frente a sua casa e canta ou ir distribuir comida aos moradores de rua.

Creio que a sensibilidade é a resposta para tudo. Um coração sensível possui tanta força, tanto amor, que as distâncias e as diferenças se dissolvem.

Se nós, seres humanos, estivéssemos mais sensíveis, quiçá todos cuidássemos com mais dedicação do sentido comunitário da vida. Esse é o sonho que trabalhamos e que chamamos com tanto carinho de Nación Pachamama.

5 – Pode falar-nos um pouco do trabalho da Rádio Comunitária Campeche? Em que consiste?

A rádio é um projeto criativo da Nación Pachamama, para soltarmos nosso imaginário e criarmos usando o som, o poder da palavra e da diversão para refletirmos sobre a Liberdade.

Sol Aguilar, uma companheira do movimento e eu mantemos um programa chamado Canto Livre, na rádio comunitária Campeche, que fica na ilha de Florianópolis no Brasil. O nome do programa vem de uma música de Victor Jara, um cantor, herói, ativista e poeta chileno que lutou pela liberdade. Esta música é a nossa Musa inspiradora.

O programa sempre é um mistério, pois nos abrimos a infinitas metáforas para abordar um tema. Assim, usando a poesia, junto a notícias políticas, mesclado a obras de arte, livros, histórias fantásticas, misticismo, magia e etc. nasce um Canto Livre.

Cada programa cria uma tecedura, uma nova mescla de metáforas, temas e situações. É engraçado que, quando o terminamos, saímos tão surpreendidas pelo que aconteceu que é como um novo desenho nascendo. É muito divertido.

A Arte, unida à espiritualidade, é uma resposta concreta para este momento de tamanha racionalidade humana.

 

6 – Que ritual simples podemos incluir no nosso dia-a-dia para elevarmos nossa vibração energética? O quê que qualquer pessoa em qualquer lugar pode fazer?

Despertar para o dia agradecendo!

Tomar um banho e agradecer! Sentir a Mamacocha, a Sra. das águas, e agradecer.

Sentar-se para comer e agradecer. Sentir os raios do sol, de Tayta Inti, as mãos invisíveis que cultivaram o alimento e agradecer.

Agradecer pela mensagem de um amigo querido no Whatsapp.

Agradecer pelo sol que se põe ao horizonte. Agradecer pelas forças mágicas e invisíveis que te ajudam a estar nesse lugar aonde estas.

Agradecer por todos os milagres que recebemos nesta vida.

Agradecer por termos Hermanos, companheiros ao nosso lado…

Agradecer, não como um ato mecânico, senão com intenção, com consciência. Isso mantém o coração sensível e bondoso.

Agradecer é amor, e o amor é a força mais profunda e intensa que existe para nos manter em alta vibração energética. Amor é ayni. Amor é a Pachamama.

 

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