Entrevista com Jackie Wrafter, Diretora da Fundação Kianh

Conhecer a Jackie Wrafter foi um dos momentos mais gratificantes da minha viagem conforme descrevi aqui.

A Jackie é uma mulher inspiradora, que criou a Fundação Kianh em 2012, após se ter mudado para o Vietname há 19 anos para trabalhar com crianças com deficiências no orfanato local. O trabalho de Jackie tem mudado a vida de centenas de famílias na região, pois ao causar impacto na vida da criança, está-se também a mudar a vida dos pais e toda a dinâmica familiar.

Eu conheci a Jackie Wrafter no Grupo de Escritores de Hoi An criado por Kerstin Pilz em Write Your Journey, cujo trabalho irei partilhar nas próximas semanas. A Jackie é um ser humano vibrante cujo coração de ouro irradia da sua presença. A sua escrita reflecte essa mesma leveza e luz! Foi uma honra enorme entrevistar a Jackie e visitar a Fundação Kianh e ter a oportunidade de partilhar a sua história.

Nas próprias palavras da Jackie, vamos descobrir mais sobre o seu percurso, o que a levou a mudar-se par ao Vietname e como é que a Fundação Kianh está a ter impacto na vida de centenas de seres humanos:

 

1 – O quê que te levou a deixar tudo e mudares-te para o Vietname? Como é que começaste a trabalhar com crianças? O que despoletou esta mudança de vida?

Em 1999 eu estava muito aborrecida com o meu trabalho no departamento editorial de publicações românticas e então eu e o meu namorado decidimos tirar o ano e viajar pelo mundo. Em Março de 2000, chegámos a Hoi An no centro do Vietname. Uma amiga minha, que também se chama Jackie e também é de Inglaterra, visitou-nos e pediu-me para ir com ela ao orfanato local. Eu não estava interessada em fazer isto, mas ela fez-me sentir culpada, então decidi ir para lhe fazer companhia. Havia cerca de 70 crianças no orfanato, mas havia também uma sala onde viviam 16 crianças com deficiências. Entrar na sala mudou a minha vida. As crianças estavam ali, vivendo vidas sem alegria, deitadas em camas duras numa sala escura e mal cheirosa dia após dia. Ninguém pegava nelas, ninguém brincava com elas, ninguém falava com elas e elas nunca saíam daquela sala. A minha amiga e eu queríamos desesperadamente ajudar aquelas crianças, embora não soubéssemos a principio o que poderíamos fazer. Começamos a angariar dinheiro para ajudar crianças com deficiências e eventualmente construimos a Fundação Kianh, de modo a melhorar as vidas dessas crianças e os cuidados que elas recebiam.

2 – Quais são os principais desafios que tu enfrentaste no início e como é que os ultrapassaste?

O principal desafio foi ser suficientemente aceita para ser capaz de implementar mudanças num orfanato do governo na República Socialista do Vietname! Não foi fácil! Eu tive de construir muita confiança junto do staff de cá.

 

3 – Como é que a Escola começou a ganhar forma e como é que este projeto aconteceu?

Após alguns anosa trabalhar no orfanato, nós notámos que as famílias locais que tinham crianças com deficiências estavam a começar a pô-las no orfanato como única forma de aceder aos nossos serviços. Nós não queríamos que as famílias se separassem então tinhamos um sonho de ter o nosso próprio centro de dia, onde podíamos apoiar as famílias e as crianças o suficiente para que as famílias pudessem manter a sua criança junto de si. Contudo, nós éramos uma organização muito pequena e sentimos que nunca teríamos dinheiro suficiente para ter o nosso próprio centro. Depois, por mero a acaso, o Royal Melbourne Institute of Technology ouviu falar de nós e deu-nos o dinheiro para construir o nosso próprio centro! Que assim fizemos, e que foi aberto em 2012.

 

4 – Quem são os teus principais alunos? Quais são os desafios que eles e as suas famílias estão a enfrentar?

Porque nós somos a única escola/centro deste tipo e certamente o único a trabalhar nesta área pobre e semi-rural de Dien Ban, nós tentamos servir a comunidade o máximo que pudermos, o que significa que aceitamos alunos com variados desafios e com uma gama de idades muito grande. Nós trabalhamos com crianças dos 1 aos 18/19 anos, que têm Paralisia Cerebral, Síndrome de Down, Microcefalia, Surdez e Cegueira, atrasos cognitivos e todo o espectro de Autismo. Os principais desafios que eles e as suas famílias enfrentam é a falta de consciência, conhecimento e compreensão sobre as suas próprias condições.

5 – Quantos estudantes é que a Escola tem neste momento? Quantos estão na lista de espera?

Atualmente temos 100 crianças, mas existem mais de 200 em lista de espera, e esta lista continua a aumentar. Estamos mesmo só a trabalhar com a ponta do icebergue.

 

6 – O que seria necessário para a Escola poder aceitar mais alunos?

Dinheiro, pura e simplesmente. Nós passámos imenso tempo em formação com o nosso staff local para podermos trabalhar com eficiência com uma grande variedade de crianças. Nós temos a experiência e o conhecimento para ajudar, mas nós temos dificuldades financeiras em manter o nosso programa atual. Nós não temos dinheiro para integrar mais pessoal, que é aquilo que nós precisaríamos para ajudar mais crianças.

7 – Como é que conseguiste arranjar staff para a Escola? Quais foram as formações e/ou ferramentas usadas para criar condições para o staff se tornar qualificado para as tarefas que tem em mãos?

Não existem cursos universitários para educação especial nesta região onde nós trabalhamos, por isso é muito difícil arranjar pessoal qualificado. Nós temos dois professores qualificados com educação especial, três fisioterapeutas qualificados, mas o resto do nosso pessoal é uma mistura de professores mainstream, educadores de infância e indivíduos de diferentes meios, incluindo agricultura e trabalho de restauração. Contudo, o que todos têm em comum é que são pessoas cheias de compaixão que querem mesmo trabalhar com crianças com deficiências. Nós temos muita sorte por termos uma excelente relação com o Programa Internacional de Voluntários Australianos, que nos enviam formadores qualificados a longo prazo com a capacidade de “construir” o nosso staff.

 

8 – Qual é o impacto de estar na Escola na vida destes alunos?

Eu acho que estar na escola faz uma diferença enorme na vida dos nossos estudantes. A alternativa seria uma vida deitados numa cama em casa, ou ainda pior, serem dados a um orfanato do Governo. Na nossa Escola eles têm a chance de aprender e fazer amigos, de ter infâncias normais. Nós vimos mudanças extraordinárias nas nossas crianças, eu chamo frequentemente a estas mudanças “pequenos milagres”, porque é essa a sensação que estas mudanças dão. Nós tivemos um menino muito Autista que se juntou a nós quando tinha 5 anos. Ele não falava nem participava em nada e era muito destrutivo, o único interesse que parecia ter era partir tudo o que tinha à volta dele. A família dele estava exausta e sentia-se derrotada e nós queríamos ajudá-los, mas dissemos-lhe que só poderíamos aceitar o filho dele durante um período de prova, visto que não tinhamos a certeza se poderíamos ajudar. Hoje, ele tem 12 anos e estuda na nossa classe principal. Ele porta-se bem e consegue falar e frequentemente conta à mãe o que aconteceu durante o dia quando vai embora da escola. Outro estudante que temos é uma menina que é surda e cega. Ela passou algum tempo num hospital psiquiátrico local por se auto-mutilar devido à frustração, porque ela é uma menina brilhante presa no seu próprio corpo. Nós conseguimos ensinar-lhe linguagem gestual através do toque e depois o desenvolvimento dela começou. Ela participa na rotina da aula, junta-se a jogos com os colegas, anda de bicicleta, pinta e tem um bom nível de independência.

9 – Podes partilhar connosco a história do teu filho e como é que o adoptaste?

Quando eu trabalhei no orfanato, eu frequentemente pensava em adoptar uma das crianças com deficiências. Contudo, independentemente do quanto eu gostava deles, eu sabia que eu não era suficientemente forte para tomar conta de um deles a tempo inteiro. Entretanto, um menino de 6 anos chamado Khoa veio viver para o orfanato. Ele tinha Paralisia Cerebral, não conseguia andar, mal falava e não sabia nada. Ele tinha família, mas eles eram muito pobres e viviam no campo e não tinham ideia nenhuma de como poderiam ajudar o seu filho. Eu e o Khoa tivemos um click e eu gostava imenso de ver o quanto ele trabalhava para apreender e aprender todas as oportunidades que subitamente tinha à sua volta. Ele começou a desenvolver-se muito rápido. Eu conversei com a família deles e perguntei se ele poderia viver comigo e eles concordaram. Ele é meu filho adoptado, mas ele é filho deles também e eles visitam-no na nossa casa todos os meses. O Khoa tem hoje 18 anos e vai começar a trabalhar brevemente como assistente de professor.

 

10 – Quais são os principais desafios que enfrentas na tua atividade diária?

O nosso principal problema é angariar dinheiro suficiente para manter tudo isto a andar. As pessoas dão-nos coisas materiais como computadores, brinquedos, comida, etc e apesar de estes bens serem muito bem-vindos, nós somos um projeto baseado em recursos humanos. 95% do nosso budget vau para o salário do nosso staff. Se nós não conseguirmos pagar o nosso incrível e experiente staff, nós não temos escola ou projeto nenhum.

 

11 – Quem são os principais apoiantes da Escola? Quem pode apoiar a Escola?

Nós recebemos donativos diretos através do nosso site e alguns dos nossos estudantes são patrocinados. Nós recebemos um donativo todos os meses de um hotel local e, por vezes, nós temos sorte e recebemos um donativo grande de uma Divisão de Fundos ou uma Fundação Filantrópica Familiar. Infelizmente, estes grandes donativos tipicamente nunca fazem donativos mais do que duas vezes, pois dizem que não querem que ficamos dependentes deles e eles podem querer apoiar outros novos projetos. Mas eu penso, porquê que não devemos ficar dependentes deles se eles são ricos e nós não somos? Se eles forem ajudar outro projeto start-up, será inicialmente incrível para esse projeto, mas depois eles vão acabar na mesma situação que nós, com dificuldade em manterem o que já está estabelecido. Nós realmente precisamos de um compromisso de apoio. Se alguém quiser fazer donativos ao nosso trabalho, podem fazê-lo através do link: https://bit.ly/2S7gmGP

12 – Qual seria o caminho a seguir agora? Como é que a Escola pode crescer e desenvolver-se e o quê que isso significaria?

Conforme mencionado antes, o dinheiro é o nosso principal obstáculo. Mas nós estamos comprometidos em ajudar mais crianças, com ou sem mais dinheiro, e estamos atualmente a formar professores nas escolas locais sobre como apoiar as principais crianças com dificuldades nas classes deles; crianças que são geralmente expulsas da escola após a primeira classe.

 

13 – Para quem quiser começar um projeto com tanto impacto na sua comunidade e na vida de tantos quais são as tuas recomendações? Como começar? O que ter em mente? Que palavras podes partilhar com as pessoas que estão a seguir este mesmo caminho?

Eu acho que as minhas palavras são mais desencorajadoras do que inspiradoras, porque eu sinto que um projeto destes não é para espíritos fracos! Para mim, este projeto tornou-se um compromisso de vida que é algo que eu certamente não tinha considerado quando eu me deixei levar pela primeira onda de entusiasmo há 20 anos atrás. Não se pode criar esperanças nas pessoas e deixá-las depender de ti se depois vais abandonar quando se torna demasiado duro/aborrecido/algo que já não queres! Dito isto, eu e um grupo de outras pessoas determinadas, sem muito dinheiro ou experiência relevante entre nós, conseguimos criar algo que mudou e está a mudar a vida de pessoas marginalizadas de forma enorme. Nós somos comuns, mas fizemos algo extraordinário. Quem estiver nisto para ficar, não tem de esperar pelo tipo de circunstâncias certas aparecerem. Pode fazer a mudança acontecer!

Jackie Wrafter a receber o MBE, Membro de Excelência da Ordem do Império Britânico, pelo trabalho excepcional que tem feito pela comunidade.

Com o Dia Mundial quase aqui provoque impacto no mundo apoiando este projecto. Se desejar apoiar a Fundação Kianh através dum donativo use este link!

Se quiser saber mais sobre o trabalho que a Fundação Kianh tem vindo a desenvolver, visite este site!

Eu sinto-me muito honrada pela publicação desta entrevista. Um obrigada especial à Jackie pelo tempo dispensado ao Skin at Heart e por me guiar na visita à Escola.

 

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