Kung Fu Inferno: Gata em Telhado de Zinco Quente

Após quase dois meses de treino de Kung Fu, isto parece mais o inferno do que a estrada para o paraíso. É como se as trevas tivessem tomado conta de tudo e mesmo que digam que a noite é mais escura, mesmo antes do raiar da aurora, parece que a luz está a anos luz de distância para nunca mais ser vista de novo.

Deste lugar de desesperança é frequentemente difícil manter uma visão clara, a mente aberta e os pés na terra. Tive de invocar todas as minhas forças, mesmo quando todas as hipóteses pareciam estar contra mim. Vamos olhar melhor para algumas das lições que eu tenho de aprender com isto:

1 – Não-apego

Esta é uma das lições mais importantes de todas. Frequentemente, tentamos apegar-nos às pessoas ou às expectativas ou aos nossos pensamentos sobre a maneira como as coisas deveria ser e são sobretudo esses apegos que nos fazem passar pelo inferno quando encontramos a distância entre o que pensávamos que as coisas eram e o que as coisas efectivamente são. Quando um lugar começa a mudar, um lugar que achávamos que era de certa forma (ou pior, que deveria ser de certa forma) é difícil lidar com isso, especialmente quando as nossas expectativas colidem com a realidade. Tentamos agarrar-nos a estas ilusões apenas para carregar uma carga desnecessária connosco próprios ou como Alan Watts descreveu: “A chave é apenas saber, sem qualquer sombra de dúvida, que “eu” e todas as outras “coisas” agora presentes se irão desvanecer, até que este conhecimento nos impulsione a largá-las – sabê-lo agora com tanta certeza como se tivéssemos caído do Grand Canyon. De facto, nós estamos a cair de um precipício desde o momento em que nascemos, e não ajuda agarrar-mo-nos às pedras que estão a cair connosco.” Eu tive uma conversa muito interessante com um Budista que entrevistarei nas próximas semanas e isto resume aquilo a que poderemos chamar de paz interior. O que me surpreende é: se sabemos o princípio, porquê que continuamos a ir contra ele? Porquê que não podemos simplesmente pô-lo em prática? Tenho vindo a perguntar-me isto e acho que as razões se prendem com medo e com a necessidade de controlo. Esta falsa sensação de segurança que temos dos nossos apegos e das distrações que esses apegos proporcionam.

2 – Compaixão

Outra coisa que tenho aprendido é ter a compaixão sempre presente em cada passo que damos. Quando as pessoas que deveriam ser um exemplo estão longe de o ser (mas, por outro lado, porquê que alguém que não nós próprios deveria ser o nosso modelo?) é fácil cair em emoções como raiva, tristeza e, acima de tudo, desilusão. Quando perdemos o respeito por aqueles em quem mais deveríamos confiar, é uma tarefa árdua continuar com motivação.

Mas, nas palavras dum sensato colega meu, devemos retirar o melhor de cada pessoa e aprender a arte que estamos aqui para aprender. Se a pessoa tem ou não de trabalhar nas suas aptidões como professor/a não é relevante. O que importa é que eles são profissionais de artes marciais e nós devemos focar-nos no que podemos realmente aprender com estas pessoas, em vez de nos focarmos no que elas são. Apesar de claramente se aplicar o “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço” e ser sempre difícil respeitar isso, um esforço tem de ser feito para nos focarmos na mensagem das palavras e nos desfocarmos de tudo o resto. Para além disso, eles poderão estar a passar pelo que quer que seja nas suas vidas e compaixão é a chave para lidar com isto duma perspectiva compreensiva e focada nas coisas que realmente importam quando se tem de interagir com estes seres humanos.

3 – Foco

Medo e auto-dúvida são parte da experiência de ser humano. Quem nunca sentiu isto que atire a primeira pedra! À medida que a minha mente lutava com algumas das observações dos pontos anteriores, questões como “O quê que eu estou a fazer aqui?”, “Isto é o caminho certo para mim?”, “Porquê que eu estou a fazer isto?”, “Isto está sequer a ajudar-me ou apenas a tornar tudo pior?” começaram a aparecer.

Claro que se se tem pessoas a tentarem empurrar-nos para o abismo quando se está a lidar com medo e dúvidas, isso torna tudo consideravelmente mais desafiante. Nesses momentos, temos mesmo de nos apoiar na Compaixão para lidar com isto! E depois eu percebi que estava apenas a arranjar desculpas. Percebi que essas eram exatamente as coisas que me estavam a limitar e a impedir-me de progredir: os medos, as ilusões, os apegos, o olhar para fora. Tudo isso estava a distrair-me de me focar verdadeiramente em mim!

Tal como no Captain Fantastic, no fim do dia ninguém virá em nosso socorro, ninguém nos irá salvar, temos de fazer isso nós próprios. Não existem heróis. E, mesmo que existissem, provavelmente seria “Ou se morre herói ou se vive tempo suficiente para nos vermos a tornar-mo-nos o vilão.” O que existe são pessoas! E as pessoas podem escolher viver com integridade e altruísmo, as pessoas podem escolher tomar responsabilidade para se enfrentarem a si próprias. Sinto-me uma falsa a escrever estas palavras quando ultimamente eu tenho estado tão longe disso!

Eu tenho tentado apoiar-me em coisas exteriores. Para ser sincera, eu sempre tentei apoiar-me no externo! Como o mesmo colega sensato disse: “Foca-te!”. Fora existem apenas distrações, eu tenho de ir profundamente dentro para conseguir ultrapassar tudo o que me impede de evoluir e largar todas as distrações que a mente tenta criar vezes e vezes sem conta. E mesmo que às vezes se sinta que uma das principais lutas é uma certa solidão que se pode sentir quando se escolhe este caminho, também isso é uma ilusão.

Se estivermos ligados e focados, sabemos que a separação é uma ilusão da mente: “Este sentimento de se estar sozinha e ser apenas um visitante muito temporário no universo é uma contradição com tudo o que é conhecido para o homem (e todos os outros organismos) nas ciências. Nós não viemos a este mundo; nós nascemos deste mundo, como folhas de uma árvore. Como o oceano “ondeia”, o universo “pessoeia”. Cada indivíduo é uma expressão de todo o reino da natureza, uma acção única do universo total. Este facto é raramente, se alguma vez, experienciado pela maioria dos indivíduos. Mesmo aqueles que o sabem ser verdade na teoria não têm percepção ou não o sentem e continuam a sentir-se como “egos” isolados dentro de “sacos de pele.”

Eu estou a usar a meditação e todas as ferramentas que tenho disponíveis para não fugir dos meus medos, para ter a chance de olhar para eles, aceitá-los e enfrentá-los. Eu também estou a mudar o meu foco, em vez de me focar nas coisas que deveriam ser melhoradas, nas pessoas que não são um exemplo, porque provavelmente estão a enfrentar as mesmas batalhas interiores que eu. Eu posso e vou focar-me na minha própria jornada.

Existem pessoas e valores nos quais nos podemos apoiar. Não nos devemos apegar a eles, mas podemos e devemos usá-los como inspiração, como guia em tempos de escuridão.

Nas palavras de Giacomo Casanova:

“É apenas necessário ter coragem, pois força sem auto-confiança é inútil.”

Nas palavras de The Mage de King Arthur: Legend of the Sword:

“Todos querem desviar o olhar. É essa a diferença entre homens e reis.”

E nas palavras de Maximus de Gladiator:

“Eu conheci um homem que disse, a vida sorri a todos nós. Tudo o que um homem pode fazer é sorrir de volta.”

Agora é tempo de sorrir de volta!

4 – Confiança

De todas as coisas que tenho atravessado nos últimos dias, a que mais me assusta é que eu já não estou a desfrutar da viagem. E isso ocorreu simplesmente porque a mente tomou conta e eu tenho de sair da minha própria mente. E eu estou no lugar perfeito para o fazer!

Às vezes estar sempre de um lado para o outro é continuar a fugir disso, continuar a encontrar mais e mais distrações, mais e mais desculpas. É tempo de respirar profundamente e estar aqui e agora! No início é difícil de encontrar um equilíbrio, é assustador, mas o que interessa é continuar. Se se cair, a pessoa levanta-se e tenta novamente. Se se atravessa o inferno, continua-se como Maggie, The Cat:

“Qual é a vitória de uma gata em telhado de zinco quente?

—Quem me dera saber… Continuar no telhado, creio, o máximo tempo que ela conseguir aguentar…”

O que importa é não desistir, é sentir cada sensação que se experiencia ao percorrer a viagem, sentir a brisa no cabelo e todo o corpo conectado com o que nos rodeia.

“Nós pensámos na vida com a analogia com uma viagem, uma peregrinação, no fim da qual está um objectivo sério, e o que interessa é chegar a esse fim, sucesso ou o que quer que seja, talvez o céu depois de se morrer. Mas perdemos o objectivo ao longo do caminho. Era algo musical e era suposto dançarmos e cantarmos enquanto a música estava a ser tocada.”

Desfrutar: essa é basicamente a única coisa que realmente importa! E quando saímos da nossa cabeça, desfrutamos verdadeiramente esta mágica experiência de estar vivo!

No final da semana, a minha Mãe disse as palavras mágicas, ela disse que às vezes quando ela pensa em mim aqui, eu faço-a lembrar de Arya Stark, um treino árduo, enfrentando tudo o que se pensa que se é ou foi, aceitando a fé, a vida, aprendendo a confiar, aprendendo a largar medos e controlo, aceitando que não se tem nome, não se é ninguém. Não somos ninguém e, por consequência, somos tudo, estamos todos ligados na grande dança cósmica.

Por isso, neste Dia Mundial da Criança é tempo de crescer. Crescer significa que ainda se pode escolher colocar os óculos cor-de-rosa e ver o inferno em cores e risos, mas mantendo a consciência e sendo realista sobre a grande peça de que todos e tudo são parte. Significa sair da nossa cabeça e desfrutar! Sem análise, sem apego, sem objectivo, apenas o objetivo de se estar vivo!

“Sabes porquê que eu gosto de ensinar crianças, Jack? Para eu não me perder muito em ser um adulto. Para eu me poder lembrar que há outras coisas que são importante na vida – como andar de bicicleta, brincar na casa da árvore, salpicar na água com os sapatos bons nos pés.”

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