Entrevista com o Cinéfilo Carlos Rui Ribeiro

Qualquer pessoa que me conhece sabe da minha enorme paixão pela sétima arte. Uma das poucas pessoas que possui tamanha paixão pelo cinema é um grande amigo meu, a quem poderei até mesmo chamar de mentor, com quem gosto de debater para além de filmes, também temas da vida e das sociedades atuais. Carlos Rui Ribeiro é um cinéfilo a quem tenho a honra de chamar amigo e que é o meu primeiro patron!

Carlos Rui Ribeiro já tem uma longa história com o cinema, é o fundador do Moobi – um clube de cinema para apaixonados por esta arte – e é um dos organizadores do Porto Surf Film Festival; para além de outras iniciativas cinematográficas. Hoje trago-vos esta inspiradora entrevista sobre o papel da paixão pelo cinema na vida de um cinéfilo, sobre o papel do cinema no bem-estar de cada pessoa (cinematerapia) e sobre a maneira como a vida e o cinema se tocam. Estou certa de que esta entrevista Vos irá inspirar tanto como a mim!

 

1 – Desde quando é que este teu amor pelo cinema nasceu?

A paixão pelo cinema vem desde muito cedo, desde as minhas primeiras memórias. Os meus primeiros 5 anos foram passados em França e os meus pais tinham máquina de projetar e de filmar em película de 8 mm, no formato Super8. Algumas das minhas memórias mais antigas são das projeções de filmes Super8 em casa. E essas projeções incluíam os filmes da família feitos com a máquina de filmar mas também algumas bobines que se podiam comprar com curtas-metragens. E foi numa dessas bobines que encontrei a minha primeira paixão cinéfila: The Vagabond, de Charlie Chaplin.

Depois, já em Portugal, essa paixão foi reforçada com as primeiras idas a uma sala de cinema. O filme Fantasia, da Disney, talvez não tenha sido o primeiro filme que vi numa sala de cinema mas é o primeiro de que me lembro. Teve um grande impacto e é ainda hoje o meu filme de animação favorito.

E a paixão não parou de crescer pelos anos fora, com a programação de cinema da RTP, os primeiros leitores e gravadores de vídeo e os primeiros clubes de vídeo, muitas visitas a salas de cinema, os cineclubes, os festivais de cinema, a chegada da internet e do acesso fácil a um arquivo gigantesco que abrange quase toda a história do cinema.

A origem está nessas projeções de filmes Super8 nos primeiros anos de vida, mas não têm faltado razões para que a paixão continue a crescer.

 

2 – O que é que te fascina no cinema?

Penso que o mais importante é o facto de ser como que uma fusão de fotografia, música e literatura. Essa união de imagem, som e texto/narrativa (embora haja também grandes filmes em que algum desses elementos não está presente) tornam-no num meio de comunicação e numa forma de arte particularmente estimulante. Há um estímulo simultâneo de vários dos nossos sentidos e também um apelo quer ao nosso lado emocional quer ao intelectual. É uma experiência verdadeiramente completa e enriquecedora.

 

3 – De que forma é que o cinema mudou ou afetou/afeta a tua vida?

O cinema acompanha-me desde sempre. E portanto, mais do que mudar, penso que moldou em parte a minha vida. Não consigo pensar na minha vida sem pensar também em cinema.

Tem sido companhia em alguns momentos de solidão, uma forma de relaxamento em momentos mais agitados, uma ferramenta muito importante de aprendizagem sobre as mais diversas matérias, uma forma de estímulo intelectual, um incentivo à ação em alguns momentos de indecisão, uma forma de viajar sem sair do lugar, de mergulhar noutras realidades e noutras vidas e regressar à nossa com uma perspetiva diferente. Tem-me permitido conhecer novas pessoas, fazer novos amigos. E manter ou aprofundar amizades já existentes. É um importante instrumento de partilha, de demonstração de carinho e amizade. É uma experiência social, uma forma de integração na sociedade. Permite descobrir autores, músicas, livros, ideias, que depois se tornam importantes para nós também fora dos filmes.

Pode ser quase tudo aquilo que quisermos, dependendo da forma como o utilizarmos e como aprofundarmos a relação com ele.

 

4 – Agora uma pergunta bem difícil para qualquer cinéfilo: podes partilhar connosco alguns dos teus filmes favoritos e o porquê?

É de facto uma pergunta bastante difícil. Embora seja um prazer falar sobre os nossos filmes favoritos, é muito difícil escolher apenas alguns e deixar de fora tantos outros também importantes. Ainda assim, e respondendo ao desafio, aqui fica uma lista possível de 10 filmes. Poupando nos comentários para poder aumentar o número.

2001: Odisseia no Espaço, do Stanley Kubrick (1968). O filme que está 50 anos à frente do seu tempo.

Ana e as Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters) do Woody Allen (1986). A resposta à eterna pergunta sobre o sentido da vida.

Blade Runner do Ridley Scott (1982). A banda sonora do Vangelis, que não se perdeu no tempo como lágrimas na chuva.

Disponível Para Amar, do Wong Kar-Wai (2000). A Maggie Cheung, a deslizar pelas ruas de Hong Kong, em câmara lenta, ao som da música do Shigeru Umebayashi.

Lost in Translation, da Sofia Coppola (2003). Os olhares de Bill Murray e da Scarlett Johansson a cruzarem-se enquanto ele canta “more than this, you know there’s nothing”.

O Grande Lebowski, dos irmãos Coen (1998). O filme que inspirou um novo estilo de vida, o dudeísmo!

O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella (2009). O filme que nos explica que podemos abdicar de tudo, menos das nossas paixões.

Persona, do Ingmar Bergman (1966). Os rostos da Bibi Andersson e da Liv Ullmann que quase rompem o ecrã.

Pulp Fiction, do Quentin Tarantino (1994). Uma explosão de cinema que me atingiu em cheio em 1995, um dos grandes momentos de renovação da minha paixão pelos filmes.

Vertigo do Alfred Hitchcock (1958). San Francisco, a Golden Gate Bridge e uma história da qual não se consegue sair.

 

5 – De que forma é que achas que ver um filme/ir ao cinema pode melhorar a vida das pessoas?

Quando falei do papel que o cinema tem tido na minha vida acabei por responder já de alguma forma a esta questão.

Ver um filme pode ser uma experiência extremamente enriquecedora a nível sensorial, emocional e intelectual. Pode ajudar-nos a experimentar e amadurecer emoções, divertir-nos, relaxar-nos, ajudar-nos a tomar decisões, e é uma inesgotável fonte de aprendizagem.

Ir ao cinema permite experimentar os filmes de uma forma bastante mais completa e profunda do que em casa. E é uma experiência social, que aprofunda a nossa ligação com outras pessoas. Sejam aquelas que já conhecemos e que nos acompanham, sejam os desconhecidos que vamos encontrar na sala. Além de permitir uma imersão no filme que reforça ainda mais o tal estímulo sensorial.

 

6 – Achas que o cinema pode ser usado como terapia? De que forma?

Como tenho sentido esse efeito terapêutico em mim próprio, em vários momentos ao longo da minha vida, acho que o cinema pode de facto ser também isso.

Muitas vezes dei por mim a entrar na sala de cinema com um determinado estado de espírito, e a sair dela de forma totalmente diferente. A forma como nós saímos das nossas vidas e dos nossos problemas durante 2 horas, viajamos por um outro mundo qualquer, incarnamos outras personagens, e depois regressamos, pode ter um efeito poderoso. É um pouco como dormirmos durante 2 horas e sonharmos e acordarmos revigorados. Pode ajudar-nos a relaxar, a afastar algum pensamento negativo, a organizar ideias, a tomar decisões.

O filme que escolhemos pode naturalmente influenciar o estado de espírito com que saímos de uma sessão. Mas, independentemente do filme, só o próprio ato de entrarmos na sala de cinema, de mergulharmos noutra realidade por algum tempo, já tem um efeito que pode ser terapêutico.

 

7 – Com o crescendo da televisão o cinema perdeu terreno. Como é que achas que o futuro vai evoluir? Achas que a ida ao cinema se poderá extinguir ou as pessoas vão procurar sempre a magia do grande ecrã?

O cinema conseguiu responder bem, através de inovações tecnológicas, ao surgimento da televisão. Mais complicado tem sido responder ao surgimento e crescimento da internet e do acesso mais facilitado aos filmes em nossas casas, ao crescimento dos videojogos, ao youtube, e à recente vaga de interesse pelas séries de televisão. E também à diminuição que se vai sentindo na capacidade das pessoas em estarem concentradas durante 2 horas na mesma atividade.

Penso que vai continuar a haver um conjunto de pessoas com muito interesse no cinema e em verem cinema numa sala com um grande ecrã. Talvez esse número não volte a ser tão grande como já foi, talvez o cinema não volte a ter a importância central que já teve como entretenimento, dada a crescente concorrência das alternativas.

Ainda assim não acredito que o cinema se vá extinguir. Poderá sofrer novas transformações importantes, como aquelas que já aconteceram no passado com a introdução do som e da cor, e dos efeitos gerados por computador. Mas penso que perdurará. O número de interessados poderá ser menor, mas aqueles que têm essa paixão dispõem hoje em dia formas de acesso aos filmes que lhes permitem ser os cinéfilos mais privilegiados de sempre. Como forma de arte e de cultura poderá até fortalecer-se.

 

8 – Que últimos pensamentos gostarias de partilhar com os leitores do Skin at Heart?

Aquilo que se impõe para terminar é agradecer o convite para esta entrevista, a que acedi com enorme prazer, e apelar ou sugerir que experimentem (ou que continuem a experimentar) entrar numa sala de cinema, desligar totalmente do mundo exterior, e mergulhar profundamente num filme. Não há experiência igual!

 

Uma curiosidade: foi o Carlos que precipitou que eu assistisse ao que viria a ser um dos meus filmes preferidos: El Secreto de Sus Ojos e esse é apenas um dos muitos motivos pelos quais lhe estou grata!

O Skin at Heart agradece a Carlos pela inspiradora entrevista que deixa um sorriso nos lábios de qualquer pessoa que goste de cinema!

 

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