Entrevista com a Atriz Clarissa Hoffmann

A Clarissa Hoffmann é uma actriz de origem alemã que trabalha em Los Angeles. Conhecemo-nos no retiro de Kung Fu Nam Yang em Pai na Tailândia e tivemos uma forte ligação imediata. A Clarissa tem uma maneira de ver a vida que é muito inspiradora e nesta entrevista vai partilhar connosco os seus segredos de bem-estar, as suas rotinas e o seu percurso.

 

1 – Podes falar-nos um pouco sobre o teu percurso?

Claro. Depois de ter estudado turismo e administração de negócios na Alemanha e em Espanha, passado quase um ano no Chile a trabalhar e a estudar o idioma, escolhi tomar um rumo diferente, um rumo relacionado com a minha paixão secreta: ser actriz. Isso foi há 7 anos e levou-me de Munique a Nova Iorque (onde estudei durante 3 anos) e de lá para Los Angeles onde estou presentemente.

 

2 – Como é que a Escola de Atores mudou a tua vida e porquê que recomendas o curso de ator a qualquer pessoa?

A Escola de Atores é uma escola de vida. É muito transformadora! Sai-se de lá sendo uma nova pessoa. Tem-se a chance de nos explorarmos a nós próprios e outros de formas que nunca teríamos imaginado antes. Para criar as personagens, aprendemos o que realmente move um ser humano. Ao mesmo tempo, permite-nos ter uma forma de olhar para nós próprios e ver o que foi moldado ou condicionado para a forma como somos hoje. E, depois, aprende-se a transformação para uma nova personagem. Desenvolve-se uma mente muito flexível que está muito consciente do que se está a passar por dentro e por fora. Ao mesmo tempo, treina-se o corpo e a voz também. Por isso, no final, toma-se controlo sobre quem queremos ser em palco ou em cinema. Mas eu também estou interessada em explorar esta técnica para a minha vida real.

3 – A filosofia por trás é que se tomarmos controlo dos nossos pensamentos tomamos controlo das nossas emoções. Quais são as técnicas e/ou hábitos que recomendas especialmente no dia-a-dia para conseguir atingir um estado de espírito mais calmo e estar no controlo das emoções que desejamos sentir?

Bem, a meditação é a primeira coisa que sugeria. Permite que esteja plenamente consciente de que pensamentos estão a atravessar a sua mente, e eventualmente poderá decidir por si próprio se quer continuar a identificar-se com esses pensamentos ou não. Eu acredito que cada emoção é causada por um pensamento. Por isso, se estiver em controlo dos seus pensamentos, estará em controlo das suas emoções. Muitos dos nossos pensamentos estão relacionados com o nosso passado ou o nosso futuro. E esses são aqueles que causam a maioria das emoções negativas que nós experienciamos. Se puder praticar aceitar o seu passado como foi/é e sentir-se grato pelas lições que aprendeu com ele, pode ganhar mais liberdade emocional.

Em geral, praticar a gratidão é uma das melhores coisas com que me deparei. Pode fazê-lo com um diário de gratidão de manhã antes de começar o dia.

Outra técnica que uso é criar uma série de intenções – sobre o tipo de pessoa que eu quero ser. Começar o dia com uma intenção sobre a sua própria vida, ou definir intenções para os próximos 3-5 anos, 1 anos, próximos meses ou diariamente. Recordar-se cada dia da pessoa que quer ser e que tipo de dia quer ter, pode mudar a sua vida.

O que também é muito eficaz é não ligar o telefone até ter feito a sua rotina matinal. Muitas pessoas acordam de manhã e a primeira coisa que fazem é ligar o telemóvel. Nesse caso, são imediatamente bombardeadas pelo mundo exterior e podem ficar stressadas, ansiosas e responder sem estarem conscientes das suas reações. Enquanto que colocar-se num estado mental calmo antes de começar o dia e depois ligar o telefone, permite que tenha controlo nas suas reações e não se sentirá afectado pelas coisas que aparecem no seu dia. Você tem o poder sobre o seu estado mental.

 

4 – Partilha connosco um pouco da tua viagem: onde estiveste, quanto tempo, porquê que decidiste viajar.

No final do ano passado, eu percebi que necessitava de uma pausa da representação. Nos últimos 7 anos, eu estive 100% nisto, por isso senti que precisava de uma mudança de foco. E, subitamente, lembrei-me de um velho sonho que tinha – fazer uma viagem sozinha de mochila às costas pela Ásia. Eu queria ir a uma selva densa, estar totalmente imersa na natureza. Basicamente um contraste de ter que lidar com redes sociais todos os dias e ter de estar disponível a qualquer momento para audições e trabalhos de representação. Ao mesmo tempo, eu queria entrar num estado de fluidez novamente e ver o que o universo me reservava quando eu apenas seguia a minha excitação.

Portanto, as únicas coisas que marquei antecipadamente foram o voo para Bali e as minhas duas primeiras noites lá. Daí decidi tudo espontaneamente. E a aventura incrível começou! Acabei por me voluntariar no Bali Spirit Festival, andar de scooter pela selva Balinesa e desfrutar das praias paradisíacas das Ilhas Gili. Depois voei para Singapura, onde explorei os telhados da Marina Bay Sands e ao longo do porto (telhados são uma das minhas outras paixões para além das selvas). A próxima paragem foi Borneo para um safari na selva ao longo do rio Kinabatangan que me fez lembrar o Amazonas. Eu vi diferentes tipos de macacos, pássaros e mosquitos. Foi fascinante! Depois fui ao Vietname, onde explorei Halong Bay e as outras centenas de ilhas e continuei a explorar todo o norte de mota durante diversos dias. Foi inacreditavelmente bonito. Depois disso, desafiei-me a ir a um retiro de Kung Fu na Tailândia por duas semanas e, finalmente, terminei a minha viagem pela Ásia no Nepal numa semana num Mosteiro Budista a aprender a “cultivar um bom coração”.

 

5 – Como foi a tua experiência no Retiro de Kung Fu Nam Yang em Pai, na Tailândia?

Foi incrível! Eu tive esta ideia de fazer artes marciais intensivamente há algum tempo inspirada pelo filme Kill Bill. Quando eu vi a Uma Thurman no seu papel a ser treinada pelo velho mestre, eu sabia que queria experienciar algo assim também.

Eu estou muito interessada na relação mente-corpo. Quão longe posso ir com o meu corpo, agora que a minha mente está bastante treinada graças à representação e à meditação.

Fazer artes marciais faz-me sentir poderosa. Adoro esta sensação, ser forte e cheia de energia. E as pessoas mencionaram esta palavras “poderosa” muitas vezes em termos de performances de representação, trabalho de voz e outras actividades que fiz. Acho que vem de ter vivido uma vida muito calada, tímida, sem poder antes, quando era mais jovem e agora tenho de apanhar o que não foi feito. LOL

O treino de Kung Fu em Nam Yang foi melhor do que poderia ter imaginado. Diverti-me tanto. Apesar de ser um treino muito exigente com cerca de 7-9 horas por dia, houve pausas suficientes para descansar, a comida era boa e saudável para energizar o corpo e muitas outras coisas me inspiraram a continuar com esse ritmo intensivo. Especialmente treinar com pessoas de todo o mundo, de todas as idades foi muito motivador. E eu aproveitei as pausas para explorar as redondezas de scooter, tomar um smoothie saudável na cidade artística de Pai, nadar numa cascata ou relaxar numa terma. E o cenário era fenomenal. Começávamos às 6h da manhã com Chi Kung na área de treino a céu aberto, abençoados com a magnífica vista para as montanhas e para o nascer-do-sol – mágico!

 

6 – Como foi tua experiência de Meditação no Mosteiro Budista no Nepal?

Foi muito interessante. Eu adoro explorar diferentes maneiras de viver e de me testar a mim própria em diferentes ambientes. Por isso o mosteiro estava na minha mente há diversos anos e finalmente tive a possibilidade de o experiência. Tudo era muito simples lá. Eu acordava às 6:30, ia para a meditação, tomava o pequeno-almoço, aula, almoço, aula, jantar, meditação, dormir. Sem telefones, nem computadores, pois não era permitidos, tal como falar entre o jantar e o almoço do dia seguinte. Foi muito bom! Falámos de atingir a felicidade, a consciência, vazio, compaixão, amor, karma, reencarnação, sofrimento, beneficiar outras pessoas, auto-estima e altruísmo. No final, eu deixei este lugar com a confirmação das minhas teorias sobre viver uma vida feliz e plena.

 

7 – Podes dizer-nos um pouco mais sobre a tua teoria da felicidade e como gerir eficientemente as nossas emoções?

Eu ainda estou no processo de descobrir os pontos mais importantes que eu passei para ser capaz de atingir este fantástico estado de espírito em que estou neste momento. Vou tentar o melhor possível explicar:

Antes de mais é muito importante estarmos conscientes dos nossos pensamentos, conforme mencionei antes. Os pensamentos desencadeiam emoções, por isso quando controlamos os nossos pensamentos, podemos controlar as nossas emoções. Podemos aprender isso através da prática de meditação e de presença com aquilo que fazemos.

O próximo passo pode ser largar os passado, a história que contamos a nós próprios todos estes anos. Aceitar o que tiver acontecido, sentir-mo-nos gratos pelas lições e estar radiante com o incrível futuro que nos aguarda. Basicamente, libertar-mo-nos de todo o apego emocional em relação a coisas, eventos e pessoas (relações positivas ou negativas), etiquetas/imagens de nós próprios e por aí fora. Existem diferentes formas de fazer isso.

Depois recomendaria fazer uma meditação de amor e bondade, que os Budistas usam no seu Bodhicitta para gerar um sentimento de compaixão e amor por cada ser humano, não interessando se é bom ou mau. Se uma pessoa reagir em relação a si de uma maneira de que não gosta, se ficar chateado por exemplo, é a sua escolha ficar chateado em relação a isso. Também pode escolher não reagir a isso. Pode mover-se para um ponto de compreensão (criar compaixão por essa pessoa) e aceitação de que a pessoa é assim por causa de certas experiências que teve na vida e optar por reagir de uma forma bondosa ou não reagir de todo. Quando julgamos outras pessoas, no final estamos sempre a julgar-nos a nós próprios também. Maioritariamente tem-se um conflito com esta qualidade que a outra pessoa está a mostrar, por isso reage-se de uma forma chateada para com essa característica. Olhar para esse lado de nós próprios e descobrir porquê que estávamos a tentar escondê-lo. Assim que se aceita este lado em nós, aceita-se a outra pessoa também e sentimo-nos melhor para connosco e para com a outra pessoa.

Daqui pode-se praticar um sentimento de amor pela outra pessoa e vai ver que se vai amar mais a si também.

E, eventualmente, existe outro exercício poderoso desenvolvido por Erich Körbler. Basicamente consiste no uso de afirmações com água e símbolos. Decide que tipo de pessoa quer ser ou que tipo de coisas quer que mudem na sua vida, escreve num pedaço de papel com um símbolo específico, depois pega um copo de água e lê as frases durante 3 minutos e toma a água no final. Isto fez milagres por mim. Eu comecei a usar isto quando tinha 17 anos e ajudou-me muito em momentos desafiantes da minha vida.

8 – Quais são os principais hábitos que as pessoas têm que acabam por lhes dificultar o caminho da felicidade?

Compararem-se com os outros e verem as coisas negativas em si próprias, em vez de se apoiarem e amarem os outros. Terem uma perspectiva negativa da vida e serem demasiado preguiçosas para trabalhar nisso. É tudo sobre mindset e maneira de pensar e fazer a decisão de viver uma vida feliz. E pode-se fazer isso agora mesmo. Neste momento. Respire e decida! É isso!

 9 – Podes partilhar connosco as tuas rotinas de bem-estar físicas e mentais?

Claro. Ao longo dos anos, eu desenvolvi uma certa rotina matinal que me ajuda a preparar o meu estado mental e o meu corpo para o dia e a ficar em controlo dos meus pensamentos, emoções, reações e condição física. Eu acordo, bebo dois copos de água com sumo de limão fresco, não ligo o telemóvel até ao pequeno-almoço, escrevo no meu diário por cerca de 6 minutos sobre o que se passa na minha cabeça, faço 20 minutos de meditação, faço uma poderosa rotina de Chi Kung e Kung Fu, tomo um duche com música divertida, escrevo no meu diário de gratidão e defino as minhas intenções para o dia, e finalmente tomo um pequeno-almoço saudável (sem gluten ou lacticínios). Depois disso, o dia pode começar! Ao mesmo tempo eu sigo uma dieta saudável, vou ao ginásio trabalhar na minha postura e cardio e relembro-me constantemente de estar presente, grata por tudo o que está a acontecer e alimentar os sentimentos de amor e bondade em relação às pessoas até se tornar automático.

 

10 – Que últimas palavras gostarias de partilhar com os leitores do Skin at Heart?

Quando eu era jovem eu sentia-me muito ansiosa, nervosa e insegura. Estava preocupada com o que as pessoas pensariam de mim, era tímida e muito calada. Quando eu digo às pessoas sobre o meu velho eu, elas nem acreditam. Aparentemente vêem-me como uma mulher forte, confiante e positiva. Isso era o que eu sempre quis atingir quando era jovem. E posso dizer que é possível. Tudo depende dos pensamentos em que se acredita.

 

O Skin at Heart agradece a Clarissa por esta extraordinária entrevista!

 

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